A treinadora do Clube Atlético de Alvalade, Liliana Marques, conversou sobre a aposta na formação na Ginástica Acrobática. Quais são os maiores obstáculos?

Hoje o fomos ao Clube Atlético de Alvalade falar com a treinadora Liliana Marques, para falar sobre a ‘’divisão base’’ na Ginástica Acrobática e perceber melhor como esta funciona, quais as suas (des)vantagens, etc.

A ‘’divisão base’’ foi introduzida em Portugal há cerca de três, quatro anos. Até então, só havia a 1ª Divisão, na qual competiam ginastas nos escalões de iniciados, juvenis, juniores e elite juniores, seniores e elite seniores. Agora, o escalão de iniciados foi incluído na divisão base, na qual existem algumas regras e faixas etárias diferentes.

Na divisão base, temos os seguintes escalões e idades:

  • Infantis – 6 aos 12 anos
  • Iniciados – 8 aos 15 anos
  • Juvenis – 9 aos 16 anos
  • Juniores – 10 aos 18 anos
  • Seniores – > 12 anos

Na opinião da treinadora Liliana, o surgimento do ‘’base’’ veio colmatar um degrau grande que existia entre os ‘’níveis’’ e a 1ª Divisão, pois havia muitos ginastas que apenas competiam naqueles primeiros, seja pelo facto de não terem condições ou ritmo de treino. Chegavam a um ponto em que não evoluíam em termos gímnicos, levando a que acabassem a sua carreira neste desporto mais cedo. Assim, esses ginastas foram integrados nesta nova divisão, dando-lhes margem para competir durante mais uns anos.

Um dos pontos positivos da ‘’divisão base’’ é a existência de limites mínimos e máximos etários para os volantes e as bases, mas diferentes face à 1ª Divisão. Neste aspeto, a divisão base é mais inclusiva, diz-nos Liliana, pois aqui uma volante de 12 anos pode competir no escalão sénior, mas se formos à 1ª divisão, a idade sobe para os 14. Isto facilita muito, pois há muitas volantes que são um pouco mais altas e com mais massa corporal, que só funcionam em pares mistos, e não em pares femininos ou trios. E nós não temos muitos bases masculinos.

E como são as regras? Na 1ª Divisão, há elementos obrigatórios que os ginastas têm de apresentar, consoante os escalões. A título de exemplo, o mortal individual ou o pino dos volantes.

Na divisão base, essa obrigatoriedade foi retirada. Os ginastas têm de cumprir um determinado número de elementos, ficando ao critério de cada treinador. Questionamos Liliana se há algum tipo de vantagem nesta ‘’liberdade’’ em poder escolher todas as figuras que os ginastas vão apresentar nos seus exercícios, ao que nos responde que pode ser facilitador, mas também pode ser, às vezes, impeditivo para os novos treinadores que iniciam carreira, na medida em que, tendo de recorrer ao Código de Pontuação Internacional (CPI), este pode ser complexo de interpretar.

Liliana frisa que esta foi uma questão discutida entre treinadores: Saber se valia a pena a existência de uma tabela ou se bastaria a remissão para o CPI, tendo-se optado pela segunda opção.

“No Código Internacional, imagina: Em júnior, tens de realizar 4 elementos de equilíbrio. Só podes cumprir dois ângulos, então esta restrição ‘’obriga’’ os ginastas a apresentar variedade nos elementos.”

Perguntamos a Liliana se acha que se tem assistido, nos últimos anos, a uma aposta e um investimento dos clubes na divisão base, precisamente por esta condensar uma série de regras mais inclusivas e abrangentes. Responde-nos que era algo que queriam há muito, que procuraram explorar logo desde o início, pois havia ginastas no clube com qualidade, mas que não tinham volume e condições de trabalho que justificassem a 1ª Divisão.

Diz-nos que o número de atletas na ginástica acrobática em Portugal tem crescido a bom ritmo, e que muitos desses ginastas não pretendem treinar 4, 5 horas diárias, como na alta competição. Assim, os clubes que apenas se dedicam à divisão base podem treinar uma média de 2-3 horas diárias. Liliana sorri quando confessa que os seus ginastas andam felizes, os resultados apareceram com pódios nos campeonatos distritais e nacionais, tendo evoluído na componente técnica.

Em contraponto, a treinadora do Clube Atlético de Alvalade, dá a sua opinião sobre o que considera ser uma desvantagem no modo de funcionamento da divisão base. A inexistência de um número mínimo de dificuldade obrigatória. Tu podes levar apenas 0,7 de dificuldade. Então mas se o objetivo passa por ter a melhor prestação e pontuação possíveis, essa opção não faz sentido, questionamos.

Liliana diz ser irrisório:

“Supõe que um trio leva 0,40 de dificuldade. No dia da prova, ao dobro da nota de execução mais a nota de artística, eles juntam os 0,40. E depois vem outro trio que apresenta um esquema com 0,70 de dificuldade, com elementos notoriamente mais fáceis de executar. Como é que tu avalias estes dois trios? Um que apresenta pirâmides mais complicadas de realizar, e outras como já referi?

Estas são situações que se tem visto, embora pontualmente. Vês trios e pares que se nota que tinham mais potencial e capacidade para fazer figuras mais complicadas, mas não fazem para ganhar execução mas a escolha dos treinadores foi noutro sentido, seja por uma questão de inteligência ou de manobra.”

Por fim, Liliana traça-nos um esboço daquilo que é o regulamento alemão em vigor na divisão base daquele país: Ao contrário de Portugal, ali as regras não remetem para o CPI. Têm uma espécie de tabela, ‘’as figuras de quadro’’, com determinadas figuras, em que através da respetiva soma se obtém a nota final do esquema.

Uma coisa engraçada que existe neste país – em Portugal não – é que lá fazem muito mais figuras por esquema. Agora, as regras em Portugalmelhoraram. Antes, só podias fazer 4 figuras. Agora, fazes 4, mas podes fazer mais, até ao limite máximo que o código internacional permitir. Assim, se falhasses uma figura, tinhas a outra como salvaguarda. Isto levou a que houvesse grupos com menos penalizações no esquema.

Diz-nos ainda que, sendo tudo isto recente, é provável que vá sofrendo alguns ajustes.

Um agradecimento pessoal a Liliana Marques.

fonte: FAIRPLAY.pt
link original : https://fairplay.pt/modalidades/ginastica/escalao-base-na-ginastica-acrobatica-liliana-marques/